A última quinta-feira uma loucura para os jornalistas. A cada minuto, uma notícia diferente: Temer marca depoimento em rede nacional para 16h; Temer adia depoimento em rede nacional para 18h; Temer vai renunciar; Temer não vai renunciar... Naturalmente, toda essa correria potencializa as chances de erro ao dar as notícias, e foi exatamente isso o que aconteceu na Globo News, como você pode conferir na imagem que ilustra este post.

No final da última quinta-feira, Temer fez um pronunciamento à nação. Visivelmente aborrecido, ele rechaçou em tom incisivo as “acusações levianas”, repudiou a “gravação clandestina” e enfatizou (duas vezes) que não renunciará à presidência. Veja o trecho a seguir:

(...) Desde logo, ressalto que só falo agora dos fatos que se deram ontem porque eu tentei conhecer primeiramente o conteúdo de gravações que me citam. Solicitei, aliás, oficialmente ao Supremo Tribunal Federal acesso a esses documentos, mas até o presente momento não o consegui. (...) Repito e ressalto: em nenhum momento autorizei que pagassem a quem quer que seja para ficar calado. Não comprei o silêncio de ninguém. Por uma razão singelíssima exata e precisamente, porque não tenho relação. (...) Por isso, quero registrar enfaticamente: a investigação pedida pelo Supremo Tribunal Federal será território onde surgirão todas as explicações. E no Supremo demonstrarei não ter nenhum envolvimento com estes fatos. (...) Não renunciarei. Repito. Não renunciarei. Sei o que fiz e sei da correção dos meus atos. Exijo investigação plena e muito rápida para os esclarecimentos ao povo brasileiro. Esta situação de dubiedade ou de dúvida não pode persistir por muito tempo. Se foram rápidas nas gravações clandestinas, não podem tardar nas investigações e na solução respeitantemente a essas investigações.

O pronunciamento foi ao ar quando o presidente ainda não se tinha conhecimento da dimensão das delações. Até aquele momento, ele ouvira apenas um trecho da conversa gravada por Joesley Batista, em que o empresário desfiou um rosário de atos criminosos de arrepiar os cabelos, como pagar uma mesada de R$ 50 mil ao procurador da República Ângelo Goulart Villela, a quem disse pagar uma mesada de R$ 50 mil em troca de informações privilegiadas da operação Greenfield (que tinha a JBS como um dos alvos). Em outro trecho, o ora delator afirmou ter “zerado as contas” com Eduardo Cunha ― preso na Lava-Jato desde o final do ano passado ―, e que vinha pagando uma mesada de R$ 400 mil a Lucio Funaro, operador financeiro de Cunha, em troca do silêncio de ambos (Cunha conhece como ninguém os bastidores do Congresso e provavelmente tem informações altamente comprometedoras sobre o impeachment da ex-presidanta incompetenta).

Temer ouviu tudo isso como nós ouviríamos as indiscrições extraconjugais de um velho amigo. E além de ser conivente, exortou o empresário a continuar subornando seus desafetos (segundo Batista, suas palavras foram “é importante continuar isso”), embora qualquer chefe de governo responsável deveria, no mínimo, mandar prender o interlocutor. A rigor, Temer nem deveria receber um investigado por corrupção no Palácio do Jaburu, tarde da noite e da maneira fortuita, como no encontro em questão.

Temer realmente cogitou renunciar, mas reconsiderou ao saber que “a montanha havia parido um rato” (consta que teria dito isso a assessores de confiança ao tomar conhecimento do conteúdo da gravação). Mal sabia ele o que viria à tona depois de seu pronunciamento. E pelo andar da carruagem, se a gente achava que o acordo de leniência da Odebrecht e os depoimentos dos 77 executivos do Grupo eram a Delação do Fim do Mundo, como classificar a da JBS? (Aceito sugestões).

Antes de encerrar, gostaria de lembrar à patuleia ignara ― que vem comemorando alegremente o caminhão de merda que foi despejado sobre TemerAécioSerra e distinta companhia ― que Joesley também fala do PT, de Lula e de Dilma. Segundo ele, foram transferidos para uma conta no exterior, a título de “vantagens indevidas”, nada menos que 50 milhões de dólares ao ex-presidente petralha, e outros 30 milhões ― em outra conta, também no exterior ― para ex-presidanta incompetenta. E tudo por intermédio do ex-ministro Guido Mantega. Como se já não bastassem as revelações bombásticas dos marqueteiros João Santana e Mônica Moura sobre a alma viva mais honesta do Brasil e sua fiel escudeira e sucessora, que porejam lisura e destilam seu repúdio aos “delatores mentirosos” ― que, na opinião distorcida desses irracionais, só mentem quando falam do PT e dos petistas.

Acorda, povo!