Se não serviu para mais nada, a palhaçada encenada no TSE ― não vejo outra maneira me referir à estapafúrdia decisão de não aplicar nenhum tipo de punição à chapa Dilma-Temer, a despeito de nunca, em toda a história eleitoral do Brasil, tantas provas de maracutaias numa campanha saltaram aos olhos ― e capitaneada pelo homem das favas ao menos mostrou como Direito e Justiça podem ser coisas distintas e resgatou uma expressão que há muito caiu em desuso, quando, incomodado pelo protagonismo do ministro Herman Benjamin, Gilmar Mendes disparou: “Essa ação só existe graças ao meu empenho, modéstia às favas”.

Favas são as vagens da faveira (planta leguminosa cultivada em Portugal) e, por extensão, as sementinhas comestíveis que se formam dentro delas. A expressão “favas contadas” ― que alude a um resultado certo, seguro ― remonta às eleições dos abades dos mosteiros medievais, nas quais os monges votavam colocando favas brancas e pretas na urna, e quem recebesse o maior número de favas brancas estaria eleito. “Mandar às favas” significa algo como “parar de discutir e submeter a julgamento, a pleito, a votação”, mas também é uma maneira menos deselegante de mandar alguém à merda.

Mendes mandou às favas o constrangimento de presidir ao julgamento de seu amigo Michel Temer. Como bem salientou Roberto Pompeu de Toledo em sua coluna na revista Veja desta semana, o site BBC Brasil rastreou nada menos que oito encontros fora da agenda oficial entre essas duas proeminentes figuras, desde que Temer assumiu a presidência da República até o início de abril. Cinco foram no Palácio do Jaburu, um deles com a presença de outras pessoas, e os demais, até onde se sabe, só entre os dois. Três deles foram num domingo, dia ideal para as conversas descansadas e sem interrupção, como exigem os encontros confidenciais. Numa ocasião festiva ― comemorava-se o aniversário do senador José SerraTemer foi à casa de Mendes, que, noutra oportunidade, também mandou às favas o escrúpulo de viajar com o amigo no avião presidencial. E para dissipar qualquer dúvida sobre a estreita relação entre os dois, ainda há a foto, no dia da posse de Mendes na presidência do TSE, em que ambos mandaram às favas os bons modos e trocaram cochichos com a mão na boca.

De uma família que domina a política na sua cidade natal (Diamantino, no Mato Grosso), o ministro Gilmar Mendes é o tipo, não propriamente novo, mas sem dúvida aperfeiçoado, no Brasil, do alto magistrado dobrado em ardiloso político. Às favas a Lava-Jato ele não diz abertamente, mas é o que faz na prática ― ao condenar as alongadas prisões de Curitiba ou ao articular, em sociedade com os políticos, medidas legislativas que contenham os ânimos de promotores e policiais. É inútil procurar onde termina o magistrado e começa o político; ambos se imbricam e se confundem.

Como versão acabada de juiz político, Mendes é tanto mais eficiente quanto capaz de revestir os ardis políticos da capa do vasto conhecimento jurídico de que, não se discute, é possuidor. Sua excelência encontrou em Herman Benjamin um adversário inteligente e ágil, mas que, nas maquinações da política, está, diante do presidente da Corte, mais ao desamparo do que cego em tiroteio.

Por essas e outras, está correto dizer que o resultado do julgamento da chapa Dilma-Temer eram favas contadas. Até as pedras portuguesas do Palácio do Planalto sabiam que o placar de 4 votos a 3 pela absolvição era líquido e certo.

E viva o povo brasileiro.