Embora cultive a imagem de intrépida guerrilheira, nossa conspícua presidanta jamais disparou um tiro sequer — a não ser no próprio pé, ao se reeleger, devido ao tamanho da encrenca que herdou de si mesma —, embora tenha amargado uma temporada atrás das grades. Aliás, o Brasil que enxerga já descobriu que a nefelibata da mancioca é um Pacheco de terninho que, sem saber atirar, virou modelo de guerrilheira; sem ter sido vereadora, virou secretária municipal; sem passar pela Assembléia Legislativa, virou secretária de Estado, sem estagiar no Congresso, virou ministra; sem ter inaugurado nada de relevante, faz posse de gerente de país; sem saber juntar sujeito e predicado, virou estrela de palanque; sem ter tido um único voto na vida, virou candidata à Presidência. E ganhou. Duas vezes!

Enfim, interessa-nos mesmo é a história das lojinhas que a formidável “gerentona” que Lula nos meteu anus adentro conseguiu quebrar — justamente quando o real andava pari passu com o dólar, ou seja, numa época extremamente favorável à importação de tranqueiras para revender aqui por estas bandas. Mesmo assim ela faliu, pôs a culpa da sua inenarrável inaptidão administrativa ao governo FHC, e agora, vinte anos depois, quebrou o Brasil. Vejamos o que diz a respeito uma matéria de Sérgio Pardellas, publicada na revista ISTOÉ de 18 de setembro passado.

Pão & Circo. Com esse nome sugestivo — alusivo à estratégia romana destinada a entreter e ludibriar a massa insatisfeita com os excessos do Império —, Dilma montou em fevereiro de 1995 uma lojinha de bugigangas, nos moldes das populares casas de R$ 1,99. O negócio em gestação cumpriu a liturgia comercial habitual. Ao registro do CNPJ na Junta Comercial seguiu-se o aluguel de um imóvel em Porto Alegre, onde funcionava a matriz. Quatro meses depois, uma filial foi erguida no centro comercial Olaria, também na capital gaúcha. O problema, para Dilma e seus três sócios, é que a presidente cuidou da contabilidade da empresa como lida hoje com as finanças do País — recém-rebaixado pela agência de risco Standard & Poor’s por falta de confiabilidade. Em apenas 17 meses, a loja quebrou. Em julho de 1996, ela já não existia mais.

Tocar uma lojinha de quinquilharias baratas deveria ser algo trivial, principalmente para alguém que 15 anos depois se apresentaria aos eleitores como a “gerentona” capaz de manter o Brasil no rumo do desenvolvimento. Mas, ao administrar a Pão & Circo, Dilma cometeu erros banais e em sequência. Qualquer semelhança com a barafunda administrativa do País atual e os equívocos cometidos na área econômica de 2010 para cá, levando ao desequilíbrio completo das contas públicas e à irresponsabilidade fiscal, é mera coincidência. Ou não.

Para começar, a loja foi aberta sem que os donos soubessem ao certo o que seria comercializado ali. Às favas o planejamento — primeiro passo para criação de qualquer negócio que se pretenda lucrativo. A empresa foi registrada para vender de tudo um pouco a preços módicos, entre bijuterias, confecções, eletrônicos, tapeçaria, livros, bebidas, tabaco e até flores naturais e artificiais. Mas a loja acabou apostando no comércio de brinquedos para crianças, em especial os “Cavaleiros do Zodíaco”. Os artigos revendidos pela Pão & Circo eram importados de um bazar localizado no Panamá, para onde Dilma e uma das sócias, a ex-cunhada Sirlei Araújo, viajaram três vezes para comprar os produtos. As mercadorias eram despachadas de navio até Imbituba (SC) e seguiam de caminhão para a capital gaúcha.

Apesar de os produtos ali vendidos custarem bem pouco, o negócio de Dilma era impopular — como a presidente hoje, que ostenta míseros 7% de aprovação. Os potenciais clientes e até mesmo os comerciantes vizinhos reparavam na apresentação mal-acabada da loja, com divisórias de tábua de madeira. “Não entrava ninguém ali”, afirmou à FOLHA o dono de uma pizzaria próxima. Ao abrir a vendinha de importados, a presidanta também não levou em conta um ensinamento básico do bom comerciante: “o olho do dono é que engorda o gado”. Segundo relato dos próprios sócios, Dilma aparecia na loja “eventualmente”. Preferia dar ordens e terceirizar as tarefas do dia a dia, situação bem semelhante ao contexto atual, em que delegou a economia ao ministro Joaquim Levy, e a política ao vice Michel Temer, até este desistir da função dizendo-se boicotado pelo (então) ministro-chefe da Casa Civil Aloizio Mercadante.

Na sociedade da Pão&Circo, o equivalente ao Mercadante era Carlos Araújo, o ex-marido. Era ele quem aconselhava a “chefa” sobre como ela poderia turbinar as vendas. Mas o Araújo se revelou tão inepto quanto aquela que viria ser a chefe da Casa Civil e presidente do Conselho de Administração da Petrobrás no governo de Lula, por ocasião da negociata de Pasadena. “Acho que ela não era do ramo”, afirmou o dono de um café ao lado. Depois de tantas trapalhadas comerciais, não restou outro destino à lojinha de R$ 1,99 de Dilma senão a bancarrota.

Questionada sobre a mal sucedida experiência no mundo dos negócios, a Dilma comercianta lembrou mais uma vez a Dilma presidanta: Há duas semanas, numa espécie de negação da realidade, esta última rechaçou a “catástrofe” econômica vivida atualmente pelo Brasil. Ao se referir à lojinha, cinco anos atrás, a Dilma comerciante saiu-se com a seguinte pérola: “Quando o dólar está 1 por 1 e passa para 2 ou 3 por 1, o microempresário quebra. É isso que acontece com o microempresário, ele fecha. A minha experiência é essa e de muitos microempresários desse País”. Ou seja, como boa petista, a presidente jogou a culpa em FHC pela malfadada experiência administrativa — que hoje, sabe-se, seria apenas a primeira. Com a agravante que a crise atual, também de sua inteira responsabilidade, atinge milhões de brasileiros. A outra teve alcance bem restrito, afetando somente o seu bolso e as economias de seus sócios. Bem, de todo modo, se Dilma atribui a falência à relação dólar/Real no período em que o negócio esteve em funcionamento, com todo respeito, ela comete um grave erro matemático. Dilma administrou seu comércio de quinquilharias importadas no melhor momento da história do Brasil para se gerir esse tipo de negócio — quando o Real estava valorizado em relação ao dólar. No ano e mês em que a Pão&Circo foi criada — fevereiro de 1995 — o dólar valia R$ 0,80. Quando quebrou, a moeda americana ainda não passava de R$ 1.

O negócio tocado pela então política filiada ao PDT fechou as portas em julho de 1996. Três anos após o encerramento da casa de bugigangas em Porto Alegre, ela assumiria a secretária de Minas e Energia na gestão Olívio Dutra (1999-2002). O resto da história.

Um ano após as eleições presidenciais, os indicadores do governo estão em um cenário bastante diferente ao da época do pleito. Afundado em uma crise econômica, que desencadeou uma crise política, os números do governo Dilma 2 vão além das expectativas de analistas em termos de recessão.

Depois de reajustes, espera-se um recuo de 3% no PIB do país e déficit de até 50 bilhões de reais nas contas públicas. O ajuste fiscal proposto pelo governo para frear a recessão se vê paulatinamente adiado, devido ao paredão de impedimentos que encontra no Congresso.

O resultado para o brasileiro foi uma piora significativa de todos os indicadores governamentais. Aprovação do governo caiu vertiginosamente enquanto dólar, índices de inflação, taxa de juros e desemprego subiram.

Veja nos gráficos a evolução dos números desde o dia em que Dilma foi reeleita presidente do Brasil (siga este link).

Abraços a todos e até a próxima.