Dizem que cada povo tem o governo que merece. Eu tenho cá minhas ressalvas, mas é impossível negar que quem elege um corrupto ou um incompetente não pode se queixar, depois, de não estar bem representado.

Quando a calamidade em forma de gente foi penabundada do Planalto, o povo deveria ter tomado as ruas para pleitear eleições diretas amplas, gerais e irrestritas, mas aceitou passivamente o “terceiro tempo” do governo Dilma, com o vice jogando de centroavante e o PMDB ainda mais “atuante”.  Assim, a janela de oportunidade se fechou, e agora já não adianta berrar Fora Temer! Diretas Já! e o escambau.

Temer é o melhor presidente que o PT já elegeu, a despeito de bater todos os recordes de impopularidade. Todavia, não se afasta um presidente da República apenas porque não se gosta dele. Prova disso foi o julgamento da chapa Dilma-Temer pelo TSE, quando quatro dos sete ministros votaram pela absolvição dos réus “em nome da governabilidade”. O ministro Gilmar Mendes, que comandou o espetáculo circense de quinta categoria, nos ensinou que as provas contundentes de financiamento de campanha com dinheiro roubado deixam de valer quando o acusado é unha e carne com o presidente da Corte. E deixou bem claro que, se a opinião pública não é capaz de lidar com isso, às favas com a opinião pública ― afinal, aos leigos não compete entender as sutilezas de um “julgamento jurídico e judicial”; cabe-lhes pagar a conta e aplaudir as decisões exaradas por juízes “supremos” ― que usam togas pretas e escrevem (às vezes até uma frase inteira) em latim ―, mesmo quando suas decisões são totalmente estapafúrdias.

No Legislativo a coisa não é muito diferente. Embora Temer tenha sido flagrado com a mão na massa, a boca na botija e a indisfarçável mancha de batom na cueca, nossos conspícuos deputados decidiram que o primeiro relatório da CCJ, favorável à investigação, não prestava, e que os membros da comissão inclinados a votar contra o presidente deveriam ser substituídos. E foi o que aconteceu: Com o irresistível “estímulo” do Planalto ― representado por R$ 2 bilhões em verbas parlamentares ―, a denúncia apresentada pela PGR foi devidamente sepultada ― também “em nome da governabilidade”.

Por essas e outras, Temer deve ficar no cargo até o final do ano que vem, mesmo que fique nu e dance um tango com Joesley Batista na Esplanada dos Ministérios. É certo que tirá-lo e dar seu emprego ao presidente da Câmara, Rodrigo Maia, seria trocar seis por meia dúzia, pois nada indica que essa mudança possa produzir alguma diferença para melhor. Ainda que Temer tenha passado os últimos quinze anos servindo Lula e o PT ― os grandes amigos de ontem e inimigos de hoje, que lhe deram de presente o cargo de vice e o desastre que vinham construindo desde que assumiram o comando do país ― e que este governo seja apenas o terceiro tempo do anterior, faltam alternativas que justifiquem o trauma de mais uma troca de presidente num espaço tão curto de tempo.

A votação na Câmara deixou claro que a missão dos deputados era interromper o curso da Justiça, pouco lhes importando a cachoeira de indícios ― de gravações a documentos, de delações a malas de dinheiro entregues ao homem “da mais estrita confiança” do presidente, de encontros clandestinos no Palácio a conselhos nada republicanos ― que recomendavam o aprofundamento das investigações pelo Supremo. A eles interessa é abafar o movimento contra a corrupção e dar esperança a seus pares que estão presos, são réus ou investigados ― além, claro, de salvar a própria pele. Com esse objetivo em vista, ignoraram solenemente o maior escândalo já surgido contra um presidente da república no exercício do cargo ― e só quem acredita em Papai Noel, Coelho da Páscoa e Fada do Dente acha mesmo que sua insolência acertará as contas com a Justiça após deixar a presidência (o STF já determinou o arquivamento da denúncia). 

Há quem atribua a situação que o país atravessa à sua ainda incipiente democracia, restabelecida, há quase 30 anos, depois duas décadas de ditadura militar. Mas há que se levar em conta que nossa “Constituição Cidadã” registra a palavra “direito” 76 vezes, enquanto “dever” aparece em apenas quatro oportunidades. Além disso, ela tem 250 artigos e já foi modificado mais de 100 vezes desde sua promulgação, em 1988. A título de comparação, a Constituição dos Estados Unidos, composta originalmente de 7 artigos, recebeu apenas 27 emendas em seus mais de 200 anos. Mas não é só: dos quatro presidentes eleitos depois da volta das eleições diretas, em 1989, dois foram depostos por impeachment e um está condenado a nove anos e meio de prisão. Sem mencionar o atual, que ascendeu ao cargo por ser vice da anterior, e conseguiu entrar para a história como o primeiro presidente da Banânia denunciado por corrupção no exercício do cargo. É mole?

O resto fica para a próxima postagem. Até lá.