O Planalto vem movendo mundos e fundos (mais fundos do que mundos) para barrar a denúncia contra o presidente na CCJ. Nesta terça-feira, caso 51 deputados se dignem de comparecer ao trabalho, o tucano Paulo Abi-Ackel poderá ler seu parecer ― favorável ao sepultamento da denúncia, e que nos custou 128 milhões em emendas parlamentares ―, enquanto Michel Temer esfrega as mãozinhas, sorridente e patético, em busca de puxadores de aplausos.

A leitura do relatório ― que deve mesmo acorrer daqui a pouco, já que o quórum necessário mal chega a 10% dos deputados ― é conditio sine qua non para a votação marcada para amanhã. Essa, porém, só poderá ser iniciada com maioria qualificada de 2/3, e a despeito de Temer precisar de míseros 142 votos para enterrar a denúncia, nem o governo, nem a oposição, isoladamente, tem condições de reunir 342 deputados ― número idêntico ao de votos necessários para autorizar o STF a investigar o presidente da Banânia.

Enquanto isso, o PSDB não sabe se desembarca ou não do governo, Rodrigo Maia não sabe se conspira contra Temer ou se continua fingindo apoiá-lo, o Supremo não sabe se vai apreciar ou não a denúncia contra o presidente nem, muito menos, como os ministros irão se posicionar a propósito ― dado o ineditismo da situação.

O país está estagnado, à deriva, ao Deus-dará. Temer afirma ter conseguido votos suficientes para enterrar a denúncia, mas isso não passa de retórica destinada a valorizar o feito para quem está fora do Planalto. A confidentes, ele demonstra sua consternação por ter torrado de uma só vez os recursos de emendas parlamentares previstos para o ano ― se for denunciado novamente, e essa é a promessa de Janot, que deve apresentar não uma, mas duas denúncias mais, e precisa fazê-lo até meados do mês que vem, quando termina seu mandato à frente da PGR, Michel ma belle terá de pular miudinho para convencer os parlamentares venais a apoiá-lo.

O governo pede apoio e compreensão à população, enquanto Temer só pensa em permanecer no cargo. Não se sabe até onde essa corda vai espichar sem se romper. São tantas as preocupações imediatas ― contas a pagar, emprego a manter e outras necessidades básicas ― que a população não se anima a bater panelas e sair às ruas em protesto contra esse apagão fiscal e moral. Mas tudo tem limite, e a paciência da sociedade civil, que já corre o risco (cada vez maior de ser assaltada em casa ou nas ruas), pode não tolerar mais assaltos promovidos diuturnamente por um Estado inchado, ineficiente e incapaz.

Uma pesquisa encomendada pela ONG Avaaz deu conta de que 81% do povo é favorável à abertura de processo contra Michel Temer (para mais detalhes, clique aqui). Esse percentual, combinado com os míseros 5% de popularidade de sua insolência, pode indicar aos deputados que votarem pelo sepultamento da denúncia que serão vistos como “cumplices” do presidente, e os parlamentares precisarão do voto dos eleitores já no ano que vem.

Façam suas apostas.