Sem tempo hábil (e vontade política) para emplacar uma reforma eleitoral que valesse já no ano que vem, nossos valorosos parlamentares aprovaram a toque de caixa um remendo que lhes garante quase R$ 2 bi (do suado dinheiro dos nossos impostos) para financiamento de suas campanhas e, no bojo dessa obscenidade ― travestida de proposta de reforma política pelo deputado carioca Áureo Ribeiro (marque bem o nome do sujeito) ―, a censura de postagens consideradas “ofensivas” à classe política.

Essa aberração ― acrescentada de última hora no arremedo de “reforma eleitoral” aprovado pelo Congresso no último dia 5 ― autoriza, sem ordem judicial e no prazo de 24 horas, a remoção de conteúdos contra políticos, em flagrante desrespeito ao Marco Civil da Internet. A boa notícia, digamos assim, é que, depois da recepção extremamente negativa, o próprio autor da emenda pediu ao presidente que não a sancionasse, com o que, segundo a Folha de S.Paulo, Michel Temer concordou.

Vale lembrar que, na atual conjuntura, o presidente precisa mais agradar à classe política do que à opinião pública, já que seu índice abissal de aprovação não deve subir, nem mesmo se ele resolver desfilar pintado de ouro. Mas é bom que o bom senso tenha prevalecido. Aliás, se os políticos estão realmente preocupados com críticas, que trabalhem direito. Se não fossem corruptos a mais não poder, não teríamos um terço da Câmara e mais da metade do Senado respondendo a inquéritos ou ações penais no Supremo (sem falar em governadores, ministros de Estado, assessores diretos da presidência e o próprio presidente) investigados, denunciados e réus na Justiça Penal tupiniquim.

E ainda falam em convocar uma Constituinte, em adotar o parlamentarismo, e coisa e tal. Com um Congresso desses?