Ao investigar Michel Temer e afastar dois parlamentares do cargo, a PGR e o STF se tornaram alvos do Planalto e do Congresso. Receando pela própria sobrevivência política, os aliados do governo não se constrangem em descumprir decisão judicial e fustigar o procurador-geral, Rodrigo Janot, e o relator da Lava-Jato no Supremo, ministro Edson Fachin.

 

Antes restrita a conversas de bastidores, a discórdia ficou explícita com a denúncia de que o Planalto teria acionado o serviço secreto para investigar Fachin, e o Senado, descumprido a decisão judicial de afastar Aécio Neves. A fervura baixou nos últimos dias, devido a um recuo estratégico de ambos os lados, mas as manobras sub-reptícias persistem: aliados do governo tramam com Rodrigo Maia uma forma de arquivar o mais rápido possível a denúncia contra Temer ― fala-se até que Maia cogita suspender o recesso parlamentar para barrar o processo enquanto o presidente ainda conta com o apoio de mais de 1/3 dos deputados.

 

Como a autorização pela Câmara deverá ser feita mediante votação nominal, a intenção da PGR é constranger os deputados (vale lembrar que, no ano que vem, os eleitores terão a chance de substituir todos os 513 deputados federais e 2/3 dos 81 senadores). Janot pretendia esperar até o final deste mês para denunciar Temer, mas agora cogita ampliar o leque de crimes, o que resultaria em pelo menos duas ações penais contra o presidente. Além disso, o procurado aposta na “colaboração” de Fachin, que parece disposto a cumprir todos os prazos processuais ― o que retardaria a chegada da denúncia à Câmara em pelo menos 20 dias e, consequentemente, frustraria o plano do governo de votar antes do recesso.

 

Especula-se também que Temer indicará algum nome alinhado à sua causa para substituir Janot na PGR, em setembro, com o objetivo de frear a Lava-Jato. Isso interessa aos congressistas alvejados por denúncias e processos, mas deve afastar os demais do Executivo (como dito, as eleições estão aí), sem mencionar que a opinião pública certamente irá se manifestar contra mais essa maracutaia.

Existe ainda a possibilidade ― remota, mas real ― de o STF passar a adotar uma posição sistematicamente obstrucionista. Um indício nesse sentido foi a atuação do ministro Gilmar Mendes no julgamento da chapa Dilma-Temer. Restam 10 ministros no Supremo, e nem todos são admiradores confessos de Temer, mas o governo briga pela sobrevivência e já mostrou que está disposto a “ir até o fim” (que se ferre o Brasil e que se lasquem os brasileiros).

 

Temer se vale do fato de seus aliados não terem força suficiente para excretá-lo a baixo custo e de os adversários preferirem o apodrecimento progressivo à ruptura de consequências incertas. Para um moribundo, cada dia a mais é uma vitória, e o governo aposta que uma melhora na economia lhe dê alguma força para influir na sucessão e proteger o presidente e seus comparsas. Não é o melhor plano, mas não deixa de ser um plano, embora seja grande o risco de Temer não ver sequer aprovadas as reformas que defende ou de chegar ao final de 2018 no cargo, pois novas denúncias poderão surgir para sangrá-lo em praça pública.

 

Como escreveu Ricardo Noblat em seu blog, quando só o problema tem as chaves da solução, a tendência da crise é perenizar, num processo de contaminação progressiva. Os atores “neutros” vão sendo arrastados para o ringue, e os árbitros vão perdendo a capacidade de arbitrar. Até que alguém, velho ou novo, prevaleça pela força e corte o nó górdio, pois nenhuma crise dura para sempre. Mas parece que ninguém tem a espada mágica. Um desembarque do PSDB certamente catalisaria o impulso para Temer cair pela via congressual, pela autorização ao STF ou mesmo por impeachment. Só que o PSDB também reluta ― por razões óbvias ― em contribuir para fortalecer decisivamente a Lava-Jato, o Ministério Público e a Justiça.

 

A situação não pode se eternizar, mas pode se estender até as próximas eleições, e é nisso que apostam o núcleo dirigente do PT e Lula, que hoje preferem o cenário de definhamento progressivo do governo Temer. O problema do PT é que, se o atual governo tem instrumentos para bloquear ― ou pelo menos frear ― as coisas em Brasília, os petralhas não têm como neutralizar Curitiba, e a ameaça para Lula e o PT está no Paraná, não em Brasília. Mesmo assim, os esquerdopatas esperam que a derrocada do governo lhes sirva de “mão do gato” para tirar castanha do fogo. Lembro que eles também achavam que o fiasco de Sarney propiciaria uma virada em 1989, e o resultado a gente sabe muito bem qual foi.

 

É fundamental ter em mente que nosso maior problema não é Temer nem Lula, mas a falta de oposição. O PSDB, tão inútil quanto um sexto dedo do pé, teve seu momento de glória ao emplacar FHC, que, quando ministro de Itamar, conseguiu vencer a hiperinflação sistêmica com o Plano Real, mas deixou a esquerda criar asas e perdeu a presidência para Lula. O sonho de recuperá-la em 2010 até poderia ter se concretizado se o tucanato tivesse se empenhado mais, mas esse cemitério de egos ainda não se conscientizou de que brigar entre si não serve como treinamento para lutar contra os verdadeiros adversários.

 

PSDB nasceu socialdemocrata, mas foi perdendo vigor conforme se distanciava da sociedade e passava a se orientar pela lógica do poder, notadamente depois de se tornar oposição aos governos do PT. Depois da derrota de Aécio em 2014, o partido entrou em parafuso. É certo que tenha contribuído para o impeachment de Dilma, que o tenha feito em nome da estabilidade, da governança, da austeridade, da “salvação nacional”, e que tenha apoiado a ideia de se ter um governo de transição que, mantendo de pé uma “pinguela” reformista, atravessasse a pior fase da crise e entregasse o país em melhores condições para o presidente a ser eleito em 2018. Só que nada fez para influenciar ou direcionar esse governo, que se deixou impregnar pelos interesses escusos do Congresso e pela preocupação em esvaziar a Lava-Jato e recompor oligarquias e práticas clientelistas, trocando a grande política pela pequena política. Um governo de perfil “parlamentar”, mas com uma base pouco confiável, sem grandeza e sem projeto, que se refletiu na composição ministerial, gerou turbulências e explodiu com as delações da JBS.

 

PSDB ficou ainda mais desmoralizado com o afastamento judicial de Aécio Neves, cuja imagem de bom moço enganou meio mundo (e aí se inclui este obscuro articulista). Com seu espaço de manobra reduzido, os tucanos optaram por permanecer no barco, mas, por não terem forças para assumir o leme, dividiram-se entre “cabeças pretas” e “cabeças brancas”. Por não conseguir esclarecer as razões da opção, o partido virou as costas para a opinião pública e deixou que se fechasse a janela de oportunidade que lhe permitiria resgatar a imagem que teve outrora, qual seja de alternativa lógica para quem já não suporta mais corruptos como os do PT e do PMDB.

 

ObservaçãoNa semana passada, a prisão temporária da irmã de Aécio foi mantida por decisão da 1ª Turma do Supremo, que decidirá, na próxima terça-feira, se pede ou não a prisão do próprio senador. Lula e PT, “esquecidos” temporariamente devido ao cataclismo gerado pela delação da JBS, apostam no “quanto pior melhor” para prolongar a crise e capitalizar suas chances no pleito de 2018. Para esses imprestáveis, é imperativo manter a militância coesa e vender a ilusão de que somente o molusco abjeto poderá reverter a crise que ele mesmo ajudou a criar ao escolher Dilma para sucedê-lo no final do seu segundo mandato. E o pior é que sempre tem quem compra.

 

Enfim, o PSDB fez sua aposta ― pouco importando, nesse contexto, a “fresta” deixada aberta para o caso de “fatos novos” forçarem uma revisão da decisão. Disseram seus caciques que agiram balizados pela “ética da responsabilidade”, mas na verdade foram motivados por expectativas futuras de autopreservação. Combate à corrupção, reforma política e qualificação da democracia saíram da agenda, o que também possibilita ao PT embarcar nessa canoa, juntando a fome com a vontade de comer.

 

Manter apoio ao governo foi mais um tijolo na obra de desconstrução do tucanato. Algo que certamente cobrará seu preço, tanto do partido, que prolongou sua indefinição, quanto da política nacional, que perdeu outro personagem que poderia fazer a diferença. Ou será que a sociedade, a opinião pública e o eleitorado perdoarão os tucanos nas próximas eleições?