Muitas histórias que li nos meus mais verdes anos começavam por “Era uma vez...”, mas algumas eram iniciadas com a frase que eu tomei emprestada para intitular esta postagem. No mais das vezes, eram fábulas bem legais, onde os bichos adotavam comportamentos semelhantes ao dos humanos, e a narrativa terminava invariavelmente com uma “moral da história”. Isso me veio à memória no último final de semana, quando li a crônica que o escritor Mentor Neto publicou na última edição da revista IstoÉ. Segue uma versão levemente modificada da historinha:

Era uma vez, no reino dos bichos, o rei Raposo, que insistia em receber no palácio membros da nobreza (os babuínos), para com eles articular estratégias de defesa contra uma eventual rebelião ― que não viria do povo (as hienas), mas dos próprios babuínos, cuja função precípua era negociar bananas com o rei para, em troca, não o derrubar.

A grande preocupação era administrar uma dívida de mais de 150 bilhões em moedas de ouro. Tal era a gravidade da situação que nem o rei nem a nobreza cuidavam do reino. Enquanto isso, as hienas assistiam a tudo como se fosse uma peça de teatro: riam a valer dos absurdos, ou vaiavam o rei e a nobreza, como se não fossem elas próprias as vítimas. Um povo que ria, vaiava e pagava impostos. Nada mais.

Como ninguém cuidava do reino, começaram a surgir os oportunistas. Nobres decadentes, as tartarugas pagavam qualquer preço para se manterem nobres. Nobres ambiciosos, os pavões pediam a cabeça do rei porque queriam tomar seu lugar. Nobres canalhas, os lagartos roubavam os outros nobres sem o menor constrangimento. E o povo ria, vaiava e pagava impostos.

A função dos sapos-cururu, como a dos sábios de qualquer reino, era deliberar sobre o que era certo ou errado. Ficavam lá, sentados em vitórias-régias, deliberando. Condenavam babuínos, hienas e até o raposo, caso eles não fossem honestos. Só que havia um sapo-boi entre os sapos-cururu. E não era um desses sapos de contos de fada, que viram príncipes. Era um sapo horroroso, que ficava no meio dos outros, mas ninguém parecia estranhar essa situação. De sua vitória-régia, ele coaxava seus esdrúxulos pareceres, e os outros sapos se limitavam a olhar e bocejar.

Assim,um sábio mandava prender daqui, e o sapo-boi mandava soltar de lá. Um sapo-cururu falava que sim, o sapo-boi ia lá e falava que não. E todos os sapos coaxavam, a nobreza o rei conchavavam, e o povo ria, vaiava e pagava impostos.

Um dia, prenderam o Baratão, pai da Dona Baratinha, que era casada com o sobrinho da mulher do sapo-boi, que foi o padrinho do tal casamento. A nobreza e o rei pararam de conchavar, as hienas pararam de rir e de vaiar (mas não de pagar impostos, porque isso não podia) e os sapos-cururu pararam de coaxar. Todos olharam para o sapo-boi, curiosos para saber o que ele faria. E o sapo-boi olhou em volta e, num gesto amplo, mandou soltar o Baratão.

A essa altura você pode pensar que o reino caiu. Mas não. Os sapos-cururu voltaram a coaxar, a nobreza e o rei voltaram a conchavar e as hienas voltaram a rir, a vaiar e a pagar impostos. E o sapão, ó, nem aí. Porque nesse reino, meu amigo, não tem moral da história.