O furo de reportagem do jornalista Lauro Jardim, publicado no início da noite de ontem em O GLOBO, caiu como uma bomba sobre um governo impopular ― com índices de reprovação assustadores ― e claudicante ― quando por mais não seja, por ter prometido um “ministério de notáveis” e entregado um notável escrete de ímprobos, dentre os quais pelo menos oito já foram expelidos devido a suspeitas de corrupção ―, mas que, embora a duras penas, vinha contabilizando resultados positivos, notadamente na esfera da Economia. Tanto é que, em nome da governabilidade, da estabilidade e de outros “ades”, vinha-se articulando uma maneira de resolver o imbróglio da cassação da chapa Dilma-Temer sem defenestrar Michel Temer da presidência (até porque, convenhamos, dois presidentes penabundados e pouco mais de um ano, ninguém merece, nem mesmo esta pobre republiqueta de bananas, com seus políticos sem moral e seus eleitorado sem-noção).

Agora, todavia, depois que veio a público a seriíssima acusação feita pelos donos do frigorífico JBS, a coisa melou legal. E a PF está a todo vapor, cumprindo mandados de busca e apreensão a torto e a direito, inclusive em gabinetes de parlamentares, no Congresso Nacional, e na residência do senador Aécio Neves, no Rio de Janeiro.

Consta que Joesley Batista teria entregue ao ministro Fachin uma gravação em que Temer avaliza o pagamento de meio milhão de reais ― há quem fale até em R$ 500 mil por semana durante 20 anos ― para calar o bico de Eduardo Cunha, o ex-todo poderoso presidente da Câmara, e de Lucio Funaro, operador do deputado no esquema do Petrolão.

Desde que foi preso, em novembro do ano passado, Cunha vem ameaçando jogar merda no ventilador, seja através de um acordo de colaboração com o MPF, seja divulgando em livros as informações bombásticas sobre as entranhas podres do governo e as manobras que levaram ao impeachment de Dilma.

Aécio Neves, candidato derrotado (pela mulher sapiens e suas urnas amestradas) no pleito de 2014, também levou chumbo: ele teria pedido R$ 2 milhões a Joesley, e a propina teria sido depositada na conta de Zeze Perrella, senador mineiro e primo de Aécio (veja mais detalhes neste vídeo e clique aqui para ler a íntegra do furo de Lauro Jardim).

Trata-se de uma delação com nenhuma outra na Lava-Jato. Se a da Odebrecht levou 10 meses e a da OAS se arrasta há mais de um ano, a da JBS começou em março (estamos em maio; faça as contas).

Outra peculiaridade é a forma como os flagrantes foram feitos, quase que mediante engenharia reversa, com o número de série do dinheiro filmado e as maletas (ou mochilas) com microchips que permitiram rastreá-las. Aliás, muita gente já está contestando a validade das provas, já que as gravações teriam resultado de uma "armação" (volto a esse assunto em outra postagem). Seja como for, o estrago já foi feito, e suas dimensões são acachapantes.

Segundo Lauro Jardim, a rapidez com que foi negociada a delação dos Batista se explica pelo fato de eles terem oferecido algo nunca visto pelos procuradores: conversas comprometedoras gravadas pelo próprio Joesley com Temer e Aécio e todo um histórico de propinas distribuídas a políticos nos últimos dez anos. O mais singular é que essas conversas ocorreram dois meses atrás, quando a Lava-Jato já estava a todo vapor. Como alguém ainda tem coragem de tratar desses assuntos de forma tão descarada?

Depois da explosão dessa “bomba”, o silêncio em Brasília foi sepulcral, tanto nos bastidores do Executivo quanto na Câmara e no Senado (de onde os congressistas debandaram depois de saber das denúncias). Procurado insistentemente pela imprensa, o STF não se pronunciou ― o que é inusitado, considerando a costumeira grandiloquência do ministro Gilmar Mendes. De Fachin, não se ouviu um pio, nem mesmo para confirmar se a delação dos Batista havia sido mesmo homologada.

Os órgãos de imprensa que divulgaram a notícia disseram ter checado a veracidade das informações com investigadores da Lava-Jato. Em nota, Temer disse que jamais solicitou pagamentos para obter o silêncio de Cunha e negou ter participado ou autorizado qualquer movimento para evitar delação do correligionário. A assessoria do deputado Rodrigo Rocha Loures (supostamente encarregado pelo presidente de resolver um problema da J&F, holding que controla a JBS) informou que ele que vai esclarecer os fatos divulgados sobre a delação.

Ainda segundo Lauro Jardim, os sete delatores não serão presos e nem usarão tornozeleiras eletrônicas. Pagarão uma multa de R$ 225 milhões para se livrar das operações Greenfield e Lava-Jato, que investigam a JBS há dois anos.

Em tempo: o site de Veja publicou há poucos minutos que a irmã do senador Aécio Neves foi presa preventivamente nesta manhã, em BH. Volto com mais informações sobre todo esse imbróglio assim que as tiver.