Condenado por corrupção e arrastando mais processos a cada dia, certo político insiste em se reeleger, e sem ter como defender o indefensável, parte para ataque ― a única defesa que lhe resta. Assim, escolhe o alvo, transforma-o em inimigo e bate, bate e bate, moldando seu discurso vazio com a convicção de quem busca um projeto ― no caso, escapar da prisão pelo caminho da reeleição. Nem ele próprio acredita, mas acaba achando que vai funcionar: fazendo-se de vítima, julga merecer um voto de confiança ― ou, no caso, os milhões de votos de que precisa para pôr em prática seu projeto espúrio.

O sucesso tem muitos pais, mas o fracasso é órfão. Até porque costuma ser sempre mais fácil atribuir a terceiros a responsabilidade por aquilo que deveria ter dado certo, mas não deu. E se alguém contesta, também se torna um inimigo a ser combatido implacavelmente. Em outras palavras, quem não está com Lula está contra ele.

Dizia Jean Paul Sartre (1905-1980) que o inferno são os outros. Mas ele nunca foi um grande exemplo de conduta. Quanto a seus escritos filosóficos, eu nunca entendi nada. E acho que não estou sozinho nessa, pois ninguém mais o lê, ou leva a sério sua filosofia, ou mesmo se dispõe a enfrentar sua caudalosa prosa.

Durante sua vida, Sartre defendeu figuras controversas, como Marx, Castro e Guevara. Recusou o prêmio Nobel porque, segundo ele, a láurea só piora as condições dos homens, que são “condenados a ser livres” (?!). Sofria de ostraconofobia ― medo obsessivo de crustáceos ― e era viciado em remédios. Certa vez, sofreu um ataque de pânico ao entrar no mar com Simone de Beauvoir, o amor de sua vida ― ele acreditava que um polvo gigante subiria das profundezas e o arrastaria para a morte. Em outra ocasião, depois de consumir mescalina, passou a ver lagostas que o seguiam aonde quer que ele fosse.

No ano que vem, teremos eleições. E nessa briga de mocinho contra bandido, cada um acredita no que bem entender. Mas é bom tentar raciocinar, porque depois não adianta você culpar os outros pelas más escolhas que fez.