A autodeclarada alma viva mais honesta do Brasil não passa de um mentiroso contumaz, mas com uma capacidade de enganar digna dos melhores ilusionistas do planeta. Daí se ter transformado num mito ― aura que ainda conserva perante esquerdistas de sinapses estreitas e fidelidade canina, para quem sua recondução ao Palácio do Planalto é a única maneira de salvar do “fogo do inferno” a que fomos condenados pelas nefastas gestões petistas. Para essa caterva de admiradores insensatos, a retórica populista grassa sem trela, enquanto a mente permanece imune aos fatos e impermeável a argumentos racionais. Como bem disse o cantor e compositor Lobão, discutir política com petista é como jogar xadrez com pombo: ele derruba as peças, caga por todo o tabuleiro e ainda sai de peito estufado, cantando vitória.

Nem mesmo a narrativa de Lula sobre o acidente que o tornou eneadáctilo resiste a uma análise mais detalhada. Resumidamente, as chances de alguém perder o dedinho operando um torno mecânico são inexpressivas, mas ficam próximas de zero no caso de um operador destro ― e Lula é destro ―, perder justamente o dedo mínimo da mão esquerda. Vale a pena conferir o que diz a respeito o ex-engenheiro sênior da CSN e especialista em metalurgia de produção Lewton Verri, que conheceu os ex-metalúrgico na década de 70 e o tem na conta de um sindicalista predador e malandro, que traía os “cumpanhêros” começando e encerrando greves para ganhar dinheiro em acordos espúrios (se quiser mais detalhes, clique aqui para acessar uma postagem que revolve mais a fundo as vísceras desse caso espúrio).

Golbery do Couto e Silva ― ex-chefe da Casa Civil em dois governos militares e arquiteto da “abertura lenta e gradual” ― teria dito a Emílio Odebrecht que Lula nada tinha de esquerda e que não passava de um “bon vivant”. E o tempo demonstrou quão acurada foi era essa avaliação: Lula jamais foi o que a construção de sua imagem pretendia que fosse, e sim alguém avesso ao trabalho, que vive de privilégios e mordomias conquistados através de contatos proveitosos e a poder da total ausência daquele conjunto de valores éticos e morais que permitem distinguir o aceitável do inaceitável.

Só que está cada vez mais difícil ― até mesmo para um embusteiro do quilate do petralha ― vender a imagem do retirante nordestino que virou metalúrgico, tornou-se sindicalista e entrou para a política para combater as injustiças e desigualdades e lutar pelos fracos e oprimidos. Parafraseando Rodrigo Constantino, o Lula que iluminava o mundo quando abria a boca era o fantasma de Marilena Chauí ― “filósofa” para quem Moro foi “treinado” pelo FBI, a Lava-Jato tem a missão de “tirar o pré-sal dos brasileiros”, o mar de lama em que o PT mergulhou não passa de miragem e outras asnices que eu prefiro nem mencionar.

O Lula que emerge das delações da Odebrecht, desnudado da roupagem de mito, de pai dos pobres, de salvador da pátria, é um prestador de serviços a corporações corruptas de todos os matizes e origens em troca dos prazeres da boa vida, entre os quais a delícia de desfrutar do poder de maneira indecorosa e ainda se passar por político habilidoso, honesto e provido de um senso de justiça social sem paradigma na história deste país. A mais recente de suas fábulas é a candidatara à presidência em 2018 ― para o Brasil “voltar a ser feliz”, segundo ele e seus acólitos. Como bem disse Dora Kramer, isso seria puro delírio, não fosse fruto da tentativa de emprestar cunho político ao que pertence ao universo criminal.

O truque é velho e não chega a surpreender, mas causa espécie pela facilidade com que, mais uma vez, Lula consegue vender seu peixe: seus incorrigíveis admiradores, defensores, baba-ovos e assemelhados falam a candidatura como se ela fosse perfeitamente possível do ponto de vista legal e factível sob o aspecto político-eleitoral. Mesmo depois do depoimento de Leo Pinheiro, que costumava privar da intimidade do molusco abjeto e sentar-se com ele para degustar uma cachacinha, tomar umas cervejas (daí o codinome de Lula na OAS ser “Brahma”) e ouvir ― e testemunhar ― suas histórias mais íntimas. Na última quinta-feira, o empreiteiro disse ao juiz Moro que a cobertura tríplex do Ed. Solaris ― cuja propriedade Lula nega de mãos postas e pés juntos ― permaneceu em nome da construtora a pedido dos asseclas Okamoto e Vaccari; que a transferência seria feita posteriormente “para alguém que o presidente determinasse ou para a família dele mesmo”; que Lula o mandou destruir qualquer tipo de documento que evidenciasse o pagamento do imóvel pelo ex-tesoureiro petista João Vaccari com dinheiro proveniente de propinas (segundo a ISTOÉ, o “presente” fez parte dos R$ 87,6 milhões que a OAS pagou ao partido de Lula em troca dos R$ 6,7 bilhões em obras realizadas entre 2003 e 2015). Demais disso, Pinheiro deixou claro sua disposição de apresentar fatos e provas que dariam à Lava-Jato mais um ano de trabalho (vale lembrar que o acordo de colaboração do empresário com o MPF foi suspenso por Rodrigo Janot, no final do ano passado, depois que Veja noticiou um suposto envolvimento da OAS numa reforma executada na casa do ministro do Supremo Dias Toffoli).

O resto fica para a próxima; abraços e até lá.