Quando achávamos que a colaboração premiada dos executivos da Odebrecht era a “delação do fim do mundo”, os irmãos Batista nos lembraram de que no Brasil o buraco é bem mais embaixo e que o que está ruim sempre pode piorar.

E piorou, como se viu no julgamento de compadrio da chapa Dilma-Temer, quando, num flagrante atentado ao estado democrático de direito (se bem que, no Brasil, “democracia” é uma palavra que há muito deixou de ter significado), decidiu-se simplesmente ignorar a caudalosa enxurrada de provas de abuso de poder econômico e outros malfeitos que garantiram a reeleição da dupla dinâmica, em 2014.

Dilma, com a cara-de-pau que o diabo lhe deu, comemorou (pela segunda vez) a mantença de seus direitos políticos, e agora diz que, se voltar ao poder, “vai arrumar este país que o Temer estragou”. Sem comentários.

Temer, aliviado com a carta de alforria que recebeu do amigo de fé, irmão e camarada ministro Gilmar Mendes, parece disposto a imitar a anta vermelha, que, durante a campanha pela reeleição, disse que faria o diabo para permanecer no cargo: pondo de lado os escrúpulos, sua excelência mandou às favas as aparências e deixou transparecer o monstro que habita sob o manto do articulador habilidoso, culto, melífluo e de boas maneiras.

ObservaçãoSegundo José Simão, neste Dia dos Namorados o presidente teria presenteado o ministro Gilmar Mendes com uma cesta contendo dois ursos de pelúcia, um pote de geleia de marmelo e uma toga de... ursinhos. No cartão, a singela mensagem: Te amo. Beijos no Jaburu.

Segundo denúncia publicada em Veja desta semana, Temer acionou a Abin (Agência Brasileira de Inteligência) para investigar a vida pregressa do ministro Fachin, visando desmoralizá-lo, intimidá-lo e, se possível, tirar-lhe a relatoria da Lava-Jato no Supremo (veja mais detalhes nesta postagem).

No sábado, Cármen Lúcia afirmou ser inadmissível a prática de gravíssimo crime contra o Supremo, contra a democracia e contra as liberdades, se confirmada informação de devassa ilegal da vida de um de seus integrantes, mas mudou o discurso dois dias depois, afirmando que “não tomará nenhuma providência a respeito da denúncia, uma vez que o Palácio do Planalto negou a informação”.

Como se fosse possível confiar na palavra de um presidente atolado até os beiços em suspeitas de corrupção. Um presidente que se reúne à sorrelfa com investigados na Justiça, ouve relatos estarrecedores e não toma nenhuma providência (segundo ele, por achar que o moedor de carne, um falastrão, estaria contando vantagem). Um presidente que mente descaradamente, negando qualquer relacionamento pessoal com Joesley Batista, embora tenha viajado com a família em seu avião particular, e de ter telefonado pessoalmente para agradecer as flores que o anfitrião ofereceu a sua esposa... Enfim, cada Lula tem o Bumlai que merece.

Finda a ópera bufa encenada no TSE, ficamos com o quê? Com um presidente impopular, mas que vinha conseguindo debelar a monstruosa crise gerada e parida pelos governos petistas, mesmo que distribuindo cargos e verbas em troca de apoio parlamentar. Um presidente que move mundos e fundos para manter próximos ― e fora do alcance das varas penais de primeira instância ― Eliseu PadilhaWellington Moreira Franco e outros amigos e apoiadores envolvidos em práticas nada republicanas. Um presidente que não tem o decoro de se afastar do cargo, para melhor se defender das seriíssimas acusações que pesam contra si. Um presidente que aposta na Câmara dos Deputados para barrar a instauração de inquérito contra si, já que boa parte dos congressistas é composta de investigados ou réus na Lava-Jato (Janot deve denunciar formalmente o presidente até o final deste mês; se o ministro Fachin acolher a denúncia e 2/3 da Câmara avalizar a abertura do processo, Temer se tornará réu e será afastado compulsoriamente do cargo por até 180 dias).

Temer venceu uma batalha importante, mas a guerra está longe de terminar. Resta saber se Rodrigo Rocha Loures vai abrir o bico, e como se comportará Geddel Vieira Lima ― amigo e aliado de longa data do presidente, em torno do qual a PF está fechando o cerco. Demais disso, boa parte das atuais lideranças políticas tornar-se-á inelegível até as próximas eleições (quando serão escolhidos todos os 513 deputados federais e 2/3 dos 81 senadores para a próxima legislatura).

Até lá, só nos resta contar com o Judiciário, caso ele resolva olhar para suas próprias mazelas ― parece que ele insiste em não o fazer, a julgar pela atitude de Cármen Lúcia, que, como dito parágrafos atrás, depois de criticar duramente o Executivo por supostas investigações clandestinas contra o ministro Fachin, amenizou o discurso afirmando que “o presidente da República garantiu não ter ordenado qualquer medida naquele sentido [de determinar à Abin a investigação do ministro Fachin]” e que “não há o que questionar quanto à palavra do presidente da República”. Ao final, a ministra acrescentou que “o tema está, por ora, esgotado”. Tomara que seja só “por ora”.