Antes de deixar o comando do “bambuzal”, Rodrigo Janot ainda vai disparar flechas a torto e a direito. Contra Temer, espera-se uma nova denúncia a qualquer momento, mas o mais recente alvo do procurador-geral é Gilmar Mendes, que é ministro do Supremo e atual presidente do TSE. Como se vê, estamos bem de magistrados.

Na última segunda-feira, Janot pediu à ministra Cármen Lúcia, presidente do STF, o afastamento de Mendes da relatoria dos habeas corpus de investigados na Operação Ponto Final ― desdobramento da Lava-Jato ―, bem como a anulação das decisões que, na semana passada, revogaram as prisões preventivas de Jacob Barata Filho, o “Rei do Ônibus”, e de Lélis Teixeira, ex-presidente da Federação das Empresas de Transportes de Passageiros do Estado do Rio de Janeiro.

Para Janot, não restam dúvidas dos vínculos pessoais entre as famílias de Mendes e de Barata, “que transcendem a barreira dos laços superficiais de cordialidade e atingem a relação íntima de amizade”. Gilmar e senhora foram padrinhos do casamento de Beatriz Barata, filha de Jacob, com Francisco Feitosa Filho, sobrinho de Guiomar Mendes. Demais disso, o megaempresário dos transportes é sócio de Francisco Feitosa de Albuquerque Lima, cunhado de Mendes, o telefone da esposa do ministro consta na agenda do celular do empresário e o escritório em que ela trabalha representa empresas de Barata Filho e Lélis Teixeira. “Tudo isso compromete a isenção do ministro na apreciação da causa, ou, no mínimo, abalam a crença nessa imparcialidade”, argumentou o procurador-geral, conforme Veja publicou em seu website.

Segundo José Simão, além da tradicional vocação para laxante, o ministro do STF ― diferentemente do SBP, que é terrível contra os insetos ― atua na proteção das baratas. As decisões, digamos, discutíveis, de sua excelência são, no mínimo, notórias. Meses atrás, ele transformou o julgamento da chapa Dilma-Temer num espetáculo circense de quinta categoria, onde moveu mundos e fundos para absolver seu amigão do peito pelo placar de 4 a 3, a despeito de saltarem aos olhos as evidências de uso de dinheiro roubado da Petrobras para financiar as campanhas dos acusados. Com isso, sua excelência, do alto de seu incomparável saber jurídico, demonstrou que provas não valem quando o réu é amigo pessoal do presidente da Corte, e se a opinião pública não ficou satisfeita com a decisão, bem, às favas com a opinião pública, que essas “sutilezas” da magistratura suprema transcendem a capacidade de compreensão da plebe ignara (a quem cabe venerar a sapiência, o desprendimento e a lisura dos nobres representantes do Poderes Judiciário, Legislativo e Executivo e pagar seus régios salários ― e de seus apaniguados, assessores, asseclas, cupinchas e o escambau.

O dublê de ministro e laxante mandou soltar Barata e Teixeira duas vezes na semana passada. Depois da primeira, o juiz federal Marcelo Bretas voltou a decretar a prisão deles, mas foi desautorizado por nova decisão do ministro, no último sábado. Como que por pirraça, Mendes ainda mandou soltar outros quatro presos na Operação Ponto Final, convertendo a prisão preventiva em medidas cautelares ― como recolhimento noturno e proibição de deixar o país. Esse, senhoras e senhores, é o ministro supremo, quase divino, que tanto critica o acordo de delação premiada dos irmãos Batista, da JBS, que foram indultados em troca de revelar atos nada republicanos de Michel Temer, Aécio Neves (que também é unha e carne com o magistrado mato-grossense), Rodrigo Rocha Loures ― o homem da mala do presidente ― e outros supostos parasitas do Erário.

Inconformados com o acolhimento dos pedidos de habeas corpus, os procuradores da Lava-Jato pediram o impedimento de Gilmar Mendes, mas o ministro não se deu por achado ― e muito menos por impedido. De seu supremo ponto de vista, não há “suspeição alguma” para julgar o caso, pois ele não tem relação pessoal com Barata Filho e o fato de ser padrinho de casamento da filha dele não se enquadra nas regras legais que determinam o afastamento de um magistrado para julgar uma causa em função de relação íntima com uma das partes (mais detalhes sobre essa palhaçada neste clipe de Joice Hasselmann e Marcelo Madureira).

É mole ou quer mais? Se você ainda tem estômago, vamos lá: Outro motivo que leva os procuradores do Ministério Público a acreditar que Gilmar Mendes têm relações estreitas com Jacob Barata Filho é que, em 2015, a Confederação Nacional dos Transportes (CNT), da qual Barata era vice-presidente, patrocinou um congresso do Instituto Brasiliense de Direito Público (IDP), que pertence... Acertou: a Gilmar Mendes, para quem “a realização de eventos é normal e segue todos os procedimentos legais”. E disse mais o semideus mato-grossense: juízes não podem ceder a “trêfegos e barulhentos procuradores, nem se curvar ao clamor popular”.

E viva o povo brasileiro, que se sujeita a engolir, calado, sapos de tal magnitude.