(...) Nascido em 1894, doze anos depois de Getúlio [Vargas], Aranha seria o número 2 da geração que ingressou na vida política na década de 20 ― a melhor e mais brilhante safra de homens públicos da história do Brasil republicano. Ao elenco gaúcho, enriquecido por raridades como João Neves da Fontoura, Flores da Cunha, Lindolfo Collor, Batista Luzardo, Cordeiro de Farias ou Luís Carlos Prestes, somaram-se coadjuvantes com suficientes qualificações para brilhar como protagonistas. Nessa categoria figuram os cearenses Juarez Távora e Juracy Magalhães, o mineiro Virgílio de Mello Franco, o fluminense Eduardo Gomes, o paulista Armando de Salles Oliveira, o paraibano José Américo de Almeida. Nunca mais o Brasil veria tantos políticos vocacionais esbanjando talento ao mesmo tempo.

Aranha ainda não sabia disso em 1933, quando era ministro da Fazenda do governo provisório. Se soubesse, não teria dito que “o Brasil é um deserto de homens e de ideias”. Seria a sua frase mais famosa. Seria também o mais desastrado parecer fabricado por um cérebro reverenciado pela precisão dos diagnósticos políticos. Se a geração dos anos 20 lhe pareceu miseravelmente árida, o que diria se estivesse vivo? Como descreveria a paisagem do país nesta segunda década do século XXI? Que qualificações mereceriam os governantes que transformaram o deserto de homens e de ideias numa selva infestada de larápios, vigaristas, assaltantes de cofres públicos e ramificações da grande tribo dos fora da lei? Como reagiria Aranha ao saber que o país que levou um presidente honrado ao suicídio é governado por um homem que, acuado pelas bandalheiras em que se meteu, aparece cercado de prontuários para acusar o acusador? Alguém conseguiria explicar-lhe por que líderes originários da elite que escrevia sem erros e falava português corretamente foram trocados por analfabetos funcionais como Lula ou bestas quadradas como Dilma Rousseff? Aranha estava com Tancredo Neves quando um tiro ecoou no Catete e mudou o rumo da história. O que acharia da conversa em que o neto do ministro da Justiça de Getúlio, o afastado Aécio Neves, esbanjou fluência na linguagem de cortiço? Faltam homens, faltam ideias, falta cadeia. O que há de sobra é bandido. São tantos que podem ser encontrados na cúpula dos três poderes.

A gestação do deserto começou com a mudança da capital para Brasília. Se o Congresso ainda funcionasse no Rio, por exemplo, bastaria que os renans, jucás, collors e eunícios dessem as caras na Avenida Rio Branco para sentir na pele o que o povo pensa do desempenho da turma. Entre 1964 e 1984, o sumiço de homens e ideias foi intensificado pela ditadura militar, que sufocou os nascedouros de homens públicos, como os centros acadêmicos, e fez o que pôde para extinguir espécies afetadas por defeitos intoleráveis ― coragem, honradez, vergonha na cara, altivez, autonomia intelectual e independência política, por exemplo. Somam-se a essas mazelas históricas uma legislação eleitoral ineficiente e um sistema político em permanente crise de representatividade. Os estragos restantes podem ser explicados pela constatação de Nelson Rodrigues: “Os idiotas estão por toda parte”. Talvez já sejam hegemônicos no Executivo, no Legislativo e no Judiciário. Os otimistas irredutíveis lembram que as coisas pareciam menos assustadoras há menos de trinta anos. E eram, graças à longevidade de gente que sobreviveu à devastação desencadeada em 1964. Em julho de 1994, quando já era candidato à Presidência, Fernando Henrique Cardoso evocava em tom nostálgico os seus tempos de senador. “Eu tive o privilégio de conviver com homens como Darcy Ribeiro, Roberto Campos, Afonso Arinos, Tancredo Neves, Ulysses Guimarães e outras cabeças brilhantes”, exemplificou. Todos os integrantes da lista de FHC tinham o status de cardeal. Mas também tinham mais de 70 anos. A morte dos últimos servidores da nação extinguiu o cardinalato. Hoje o Legislativo é governado pelo baixo clero.

Serão todos enterrados na cova rasa dos que por pouco não destruíram o país que a geração de Oswaldo Aranha tentou bravamente modernizar. “Vivemos, realmente, demais, porque os dias de nossas vidas serão contados por épocas, para o mundo e para o nosso país”, constatou numa carta a Flores da Cunha em fevereiro de 1959, um ano antes da morte, no Rio. “Essa metade do século XX foi uma síntese de todos os tempos. As decisões tomadas em nossa época (…) assemelharam-se à semana da criação. Ajudamos, Flores, a amainar a terra desse renovado destino brasileiro.”

O legado do atual ajuntamento de políticos é inferior a zero. A poucos meses do início da campanha presidencial de 2018, milhões de profissionais da esperança não conseguem localizar um candidato que os anime a pelo menos sair de casa para votar. Há pouco mais de cinquenta anos, faltava palanque para um Oswaldo Aranha. Meses antes do fim, ele recusou um convite para candidatar-se a vice-presidente, em 1960, na chapa encabeçada pelo marechal Henrique Lott. “Estou cansado de ser o segundo”, confessou. Pena que as trapaças da sorte impediram que se tornasse o número 1.

Excerto do artigo de Augusto Nunes publicado na edição impressa de Veja da semana passada (para ler o texto na íntegra ― e vale a pena ―, clique aqui).