O dia de ontem foi uma loucura para os jornalistas. A cada minuto, uma notícia diferente: Temer marca depoimento em rede nacional; Temer adia depoimento em rede nacional; Temer vai renunciar; Temer não vai renunciar... E é claro que toda essa correria dá margem a erros ao divulgar as notícias. Foi o que aconteceu na Globo News, como se pode ver na imagem que ilustra este post.

Mudando de pato para ganso ― ou nem tanto ―, parece que Temer resolveu mesmo enfrentar a tempestade no timão da Nau dos Insensatos. O lado bom é que, sem ele, as reformas tão necessárias ao país (vale lembrar que as reformas não são “do interesse do governo”, mas uma necessidade da nação) seriam adiadas sine die. Por outro lado, sua permanência no cargo não garante que o Congresso as leve adiante, não depois da “bomba” de quarta-feira ― aliás, desde então a Câmara e o Senado estão às moscas.

Ao ter acesso à gravação, Temer teria dito que “a montanha pariu um rato” (“PARTURIUNT MONTES; NASCETUR RIDICULUS MUS” no original ― uma frase latina de que gosto muito e que uso sempre que a oportunidade se me apresenta). Verdadeiras ou não as acusações de Wesley Batista ― respaldadas no arquivo de áudio de péssima qualidade (quase não se ouve o que o presidente diz) que a mídia vem reproduzido com uma frequência irritante ―, o estrago já foi feito. E se quebrar um vaso leva uma fração de segundo, reconstruí-lo a partir dos cacos pode levar horas ou dias, isso se o conserto for possível.

Observação: O fato de Temer ter usado a expressão retro citada me leva a pensar que ele esperava coisa bem pior da gravação. E se esperava coisa bem pior, é porque teria dito bem mais do que o arquivo de áudio revelou. Todavia, se sua postura conivente diante das “confidências” do dono da JBS não basta para levá-lo a pedir o boné, é mais que suficiente para pôr em cheque sua lisura e sua probidade administrativa. O mínimo que se espera de um presidente da República, ao ouvir um interlocutor dizer que está pagando um cala-boca de meio milhão de reais por semana a um político corrupto preso na Lava-Jato, é que determine imediatamente a prisão do sujeito.

Na gravação, ouve-se Joesley falar com tranquilidade sobre o que tem feito para se livrar de investigações de que é alvo, e Temer manifestar sua aprovação diversas vezes. Sobre Eduardo Cunha, o presidente se queixa que o ex-deputado, conhecedor de segredos escabrosos, vem tentando “fustiga-los”. Joesley diz que “zerou as pendências” com Cunha e com seu “operador”, Lúcio Funaro. Temer arremata com uma frase que denota aprovação aos pagamentos feitos em troca do silêncio de Cunha: Tem que manter isso, viu?

A história que o Palácio do Planalto tenta vender, de que está tudo na maior normalidade, é tão convincente quanto as respostas de Lula ao juiz Moro ou as falácias de Dilma sobre sua honestidade inatacável. Bullshit, como dizem os gringos.

A pretensa tranquilidade de Temer ― alardeada pelos poucos aliados que se arriscaram a falar com a imprensa desde o cataclismo ― tampouco merece crédito. Prova disso é sua postura durante o pronunciamento que fez à nação no final da tarde de ontem. Numa cena em particular, a expressão do presidente é de quem padece de fortes cólicas, noutra, vê-se claramente que ele entrelaça as mãos para disfarçar o tremor.

A decisão de Temer ― de não renunciar ― produz uma desconfortável sensação de “déjà vu”, pois o que o Brasil menos precisa neste momento é de outro impeachment presidencial. Mas nem tudo depende da decisão de sua excelência. Fosse assim, o país seria a maior economia do mundo e Michel, o presidente mais popular da história.

Embora sua excelência tenha orientado sua tropa de choque a “partir para o enfrentamento”, na tentativa de mostrar que não está acuada, é importante lembrar que o Supremo autorizou a abertura de inquérito para investigá-la. Em qualquer democracia séria, só isso bastaria para um chefe de governo se afastar do cargo até a conclusão das investigações ― se nenhum ato espúrio fosse comprovado, ele reassumiria o cargo e tudo continuaria como dantes no Quartel de Abrantes. Mas não Temer, como não Dilma, ou mesmo Collor antes dela (embora tenha renunciado, o “caçador de marajás” só o fez na véspera do julgamento do impeachment e apenas para preservar seus direitos políticos ― só que não funcionou).

Outro ditado de que gosto muito: BETTER THE DEVIL YE KEN, THAN THE DEVIL YE DON'T (numa tradução livre, “melhor ficar com o diabo que conhecemos do que com o que desconhecemos”). Com esse Congresso que aí está, o afastamento de Temer levaria Rodrigo Maia a assumir interinamente a presidência e convocar eleições indiretas no prazo de 30 dias. Com esse Congresso que está aí, isso seria uma temeridade, embora seja o que a Constituição determina e o que terá de ser feito caso Temer mude de ideia e renuncie, ou venha a ser cassado pelo TSE. Até a tarde de quarta-feira, tinha-se como certo um pedido de vistas para empurrar a coisa adiante, ou mesmo uma decisão que deixasse tudo como está (já que a separação das contas de campanha não tem aparo legal, apostava-se na tese de que, como Dilma já foi penabundada da presidência, a ação perdeu o objeto). E ainda que nada do que veio à luz nos últimos dias devesse refletir nesse julgamento, como bem disse o presidente do TSE, Gilmar Mendes, os ministros não são de Marte. Para bom entendedor, meia palavra basta.