A capital da República merece mesmo o epíteto de Brasilha da Fantasia. Fisicamente localizada no planalto central, ela mais parece um exoplaneta longínquo, de onde é impossível enxergar o que se passa no resto do país. Veja o leitor que nosso conspícuo presidente, em recente viagem à Alemanha, afirmou candidamente que não existe crise econômica no Brasil, a despeito dos quase 14 milhões de desempregados contabilizados nas últimas pesquisas.

Falando em pesquisas, a mais recente, feita ANTES DO AUMENTO DOS COMBUSTÍVEIS, dá conta de que a avaliação do governo vai de mal a pior. A impopularidade de Temer supera a de Sarney no ápice da hiperinflação e rivaliza com a de Dilma às vésperas do julgamento do impeachment. Uma proeza invejável, mas que não surpreende, até porque, com os políticos que temos, não há nada tão ruim que não possa piorar.

Falando em Temer e sua desditosa antecessora, as semelhanças entre ambos estão cada vez mais evidentes. Quando estava cai-não-cai, a presidanta tentou comprar votos dos parlamentares para escapar da cassação ― na verdade, Lula montou um balcão de trocas de cargos e verbas por votos ―. mas não funcionou, e ela levou um merecido pé na bunda.

Temer se valeu do mesmo expediente no mês passado, quando liberou cerca de R$ 2 bilhões em emendas para comprar o apoio das marafonas da Câmara ― parlamentares que se vendem como damas da noite em zonas de baixo meretrício. É certo que conseguiu mudar seu destino na CCJ, mas nada garante que obterá esse resultado no próximo dia 2, quando precisa reunir, no mínimo, 342 deputados para que a votação tenha início.

Observação: Nunca é demais lembrar que Michel Temer afirmou enfaticamente que o inquérito no STF seria o território onde sua inocência restaria provada, que iria determinar agilidade nas apurações e coisa e tal, mas o que tem feito desde então é mover mundos e fundos (principalmente fundos) para sepultar a denúncia.

Dilma chegou à presidência de carona com a popularidade de Lula, que a escolheu para manter o trono aquecido até poder se candidatar novamente. Isso porque José Dirceu e Antonio Palocci já não “estavam disponíveis” (por motivos que todos conhecemos), e Marina Silva dificilmente se deixaria manobrar como a anta vermelha.

Assim, Dilma, que sem saber atirar virou modelo de guerrilheira, sem ter sido vereadora virou secretária municipal, sem passar pela Assembleia Legislativa virou secretária de Estado, sem estagiar no Congresso virou ministra, sem ter inaugurado nada de relevante fez pose de gerente de país, sem saber juntar sujeito e predicado virou estrela de palanque, adicionou a seu invejável currículo o fato de, sem ter tido um único voto na vida, virar candidata a presidente da República e, pior, ser eleita em 2010 e reeleita em 2014 (isso é o que acontece quando um país não prioriza a educação).

Temer formou-se advogado, especializou-se em Direito Constitucional e iniciou a carreira política como secretário de Segurança Pública de São Paulo, em 1985. No ano seguinte, elegeu-se deputado constituinte pelo PMDB, foi reeleito deputado federal, presidiu a Câmara por três vezes e o partido durante mais de 15 anos. Foi escolhido por Lula para ser vice de Dilma quando Henrique Meirelles ― que era presidente do Banco Central e hoje, por uma dessas ironias do destino, comanda a pasta da Fazenda ― enfrentou forte resistência dentro do próprio PMDB.

Temer permaneceu como vice ― um vice decorativo, como ele próprio costumava dizer ― durante os quase 2.000 dias em que a mulher sapiens ocupou a presidência, compactuando com todos os seus malfeitos e se beneficiando do dinheiro sujo que irrigou ambas as campanhas, com destaque para a de 2014. Com a ajuda de Eduardo Cunha ― então presidente da Câmara e hoje hóspede involuntário do complexo médico penal de Pinhais, em Curitiba ―, articulou o impeachment da presidenta; com o afastamento dela, em maio de 2016, assumiu interinamente o comando da nação e, menos de 4 meses depois, foi efetivado no cargo, já que a desinfeliz foi devida e definitivamente expelida do Planalto. Nesse momento, Michel Temer perdeu sua primeira grande chance de renunciar.

Amanhã eu conto o resto.