O Brasil está falido porque o governo gasta mais do que arrecada. Qualquer dona de casa sabe que as despesas domésticas não podem superar a renda da família. O governo, não. A expectativa era de fechar 2017 com um déficit de R$ 139 bilhões. Como a arrecadação ficou abaixo, o governo, em vez de cortar gastos, simplesmente elevou a meta fiscal para escandalosos R$ 159 bi. A conta das despesas deveria ser de subtração, mas virou multiplicação. Seria o mesmo que a nossa dona de casa, em vez de apertar o cinto ao constatar que iria sobrar mês no fim do salário, negociasse um aumento nos limites do cartão de crédito e do cheque especial. Simples assim.

O rombo fiscal não foi criado por Michel Temer. Ele é fruto da incompetência administrativa da gerentona de festim. Mas o governo Temer nada mais é do que o terceiro tempo do governo Dilma, e os ratos continuam roendo, os corruptores corrompendo, os corruptos se locupletando e a máquina pública gastando à larga para sustentar um Estado incompetente, perdulário e corrupto. Simples assim.

No Rio de Janeiro, há 200 mil servidores vivendo da caridade de parentes ou morrendo por não ter como comprar medicamentos ou receber atendimento médico. Na UERJ, a penúria é tanta que se estende ao refeitório e aos banheiros. Professores e alunos, sem aula e sem perspectiva, assistem estupefatos o governador Pezão ― que não pagou o 13º salário de 2016 e nem os salários e aposentadorias de maio, junho por falta de recursos ― torrar R$ 2,5 milhões no aluguel de um jatinho para “ter mais conforto” ao viajar com sua equipe. O Rio é apenas mais um exemplo de um sistema político falido. No âmbito federal, o Planalto liberou R$ 5,7 bilhões para emendas de parlamentares em troca da fidelidade a um presidente sem autoridade moral para colocar o país nos trilhos. Simples assim.

Na terça-feira retrasada, o Impostômetro da Associação Comercial de São Paulo registrou R$ 1,3 trilhão em tributos pagos pelos brasileiros. A marca foi alcançada 22 dias mais cedo que em 2016, demonstrando que arrecadação acelerou de um ano para outro ― ou, em outras palavras, que o rombo no bolso dos consumidores ficou maior. Um trilhão de reais é dinheiro pra burro. Aliás, o Brasil tem a maior carga tributária em toda América Latina ― proporcionalmente, o montante é mais de 50% superior à média da região. O problema é que aqui se rouba muito, e o pouco dinheiro que escapa é usado para bancar mordomias absurdas.

De acordo com a ONG Contas Abertas, o Poder Legislativo ― isto é, a Câmara Federal e o Senado ― custa aos brasileiros R$ 1,16 milhão por hora, 24 horas por dia, 365 dias por ano ― aí incluídos os finais de semana, recessos parlamentares e as segundas e sextas-feiras, embora os parlamentares trabalhem somente de terça a quinta. Cada parlamentar recebe um salário bruto de R$ 33,7 mil. Os 513 deputados federais custam, em média, R$ 86 milhões ao mês, o que representa um custo anual de R$ 1 bilhão. E ainda contam com uma porção de mordomias, como o direito a uma penca de assessores ― um senador pode ter 50, 60 apaniguados, inclusive no seu próprio escritório de representação. E o que fazem nossos “caros” representantes quando o presidente da República é denunciado por corrupção? Vendem seus votos descaradamente, como prostitutas que comercializam o corpo nas zonas de baixo meretrício. E o que fazem na hora de votar as tão necessárias reformas? Cuidam de seus próprios interesses, buscando maneiras de obstruir as investigações da Lava-Jato, de aprovar leis que os favoreçam na renegociação de dívidas ― como no caso vergonhoso do REFIS, que virou palco de disputas políticas por um perdão de R$ 220 bilhões. Simples assim.

Observação: Deputados e senadores que integram a “bancada do Refis” devem cerca de R$ 3 bilhões à União, como revelou a Folha em abril. Liderado pelo deputado peemedebista Newton Cardoso Jr, o bando pôs em xeque o Ministério da Fazenda no último dia 9. O senador Fernando Coelho Bezerra foi o porta-voz da bancada, que entregou uma lista com seis “prioridades inegociáveis”, a fatura a ser paga em troca de 54 votos contrários à admissibilidade da denúncia contra Michel TemerR$ 13,8 bilhões, em 2017. A bancada quer manter a ampliação do limite de R$ 15 milhões para R$ 150 milhões em dívidas que permitem uma entrada menor (5%) no ato da adesão (emenda apresentada por um deputado que tem dívidas de R$ 53 milhões), a manutenção de descontos de juros e mora (chegam a 99% em alguns casos), a permissão para que devedores que respondem a processos criminais por questões tributárias possam ser contemplados pelo programa e que devedores excluídos de Refis anteriores por pagamentos irrisórios sejam reinseridos no novo programa. Simples assim.

A divergência de opiniões entre o núcleo político e a equipe econômica aniquilou o maior trunfo do atual governo ― o time de especialistas supostamente descolado dos tradicionais hábitos brasilienses. O desgaste pessoal de Henrique Meirelles começou a se acentuar ainda na fase de resistência à ampliação oficial do rombo ― ao anunciar o aumento dos impostos sobre combustíveis, ele quebrou um pacto não escrito com seus principais eixos de sustentação, o empresariado e o mercado financeiro. E o Planalto agravou o problema ao abrir o pacote de bondades que construiu sua ponte para a sobrevivência. Até quem não considera a revisão da meta um desastre, caso de Raul Velloso, especialista em contas públicas, faz a conexão: “Emendas são gastos obrigatórios em que não se consegue mexer. Mas acreditar que o governo de plantão não vai usar o orçamento em benefício próprio é muita ingenuidade. Seria suicídio. E a última coisa que esse governo é, é suicida”. Simples assim!

O rombo da meta moral é a outra face dessa mesma moeda. O déficit dos políticos com a população cresceu astronomicamente após as duas votações ― na CCJ e no plenário da Câmara ― da denúncia contra Michel Temer. Todos sabiam ― ou deveriam saber, ainda que alguns deputados não passem de ilustres imbecis ― que não lhes cabia condenar ou absolver o presidente, mas autorizar o Supremo a investigá-lo. Mesmo assim, resolveram mandar às favas a opinião pública ― 81% da população querem que Temer seja investigado ―, ignorar o maior escândalo de corrupção já surgido contra um presidente da República no exercício do cargo e impedir o curso da Justiça, talvez por medo da sentença do Supremo e também para salvar o próprio rabo.

A sociedade há de se lembrar que partidos e parlamentares da situação e da oposição barraram uma investigação legítima e necessária. O próprio Temer, no atordoado pronunciamento que fez à nação depois que sua conversa de alcova com o moedor de carne bilionário veio a público, disse que ansiava pelo inquérito no STF, pois seria o território onde surgiriam as provas de sua inocência. Mas sua insolência mudou de ideia e optou pelo caminho mais fácil ― mais fácil ainda porque quem paga a fatura, como sempre, é o contribuinte. Simples assim.