Desde maio do ano passado, quando assumiu o timão da nau dos insensatos, Michel Temer nunca trabalhou tanto como nas últimas semanas. Pena que esse afã não visasse aos interesses da nação, mas apenas a evitar a abertura do inquérito no supremo que pode torná-lo mais um candidato a hóspede do sistema penitenciário tupiniquim com escala no gabinete mais cobiçado do Palácio do Planalto. Afinal, Lula já está bem encaminhado nessa direção, Dilma deve segui-lo em breve e os atuais presidentes da Câmara e do Senado não tardam a seguir pela mesma trilha, já que ambos são investigados na Lava-Jato e ainda não se tornaram réus porque, no STF, as denúncias avançam a passo de cágado perneta.

E o pior é que, no Supremo, as coisas se arrastam mesmo depois da condenação. Prova disso é o fato de Paulo Maluf continuar livre, leve e solto, a despeito de ter sido condenado pela 1ª Turma daquela a 7 anos, 9 meses e 10 dias de prisão por lavagem de dinheiro (com início da pena em regime fechado), além de pagamento de multa e perda do mandato de deputado federal. A decisão foi proferida em maio, mas até agora não surtiu qualquer efeito. Talvez os ministros estejam confiantes de que Maluf seja preso pela Interpol ― vale lembrar que a Corte de Apelações de Paris condenou o conspícuo deputado a três anos de prisão e pagamento de multa de 200 mil euros, além de determinar o confisco de 1,84 milhão de euros. Sua esposa, Silvia Lutfalla Maluf, também foi condenada a três anos, com multa de 100 mil euros. Mas para isso o turco lalau terá de sair do país, já que o Brasil não extradita seus cidadãos. Muito conveniente, né?

Voltando a Michel ma belle: para comprar o voto das marafonas do parlamento, que se vendem como prostitutas em bordéis da boca-do-luxo, somente neste mês o presidente liberou cerca de R$ 2 bilhões em emendas (valor equivalente ao total de todo o primeiro semestre). Isso quando a previsão é de que as contas públicas fechem o ano com um rombo de R$ 140 bilhões ― ou um pouco menos, já que, para fazer caixa, sua insolência resolveu se espelhar em sua abilolada antecessora e tascar um tarifaço nos combustíveis de impostos. A liminar do juiz federal Renato Borelli, que anulava o aumento, já foi derrubada pelo desembargador Hilton Queiroz, presidente do TRF1. Cabe recurso, mas aí a decisão final ficará sabe lá Deus para quando ― e mesmo que a medida presidencial seja cassada, o governo certamente encontrará maneiras de escorchar o contribuinte e forçá-lo a pagar a conta de sua incompetência, até porque, pelo visto, cortar gastos está fora de cogitação.

Da sociedade, Temer e seus comparsas esperam boa vontade, solidariedade e compreensão. Faz sentido: se o cidadão já é assaltado por bandidos cotidianamente, por que não ser assaltado também por um Estado inchado, ineficiente e incapaz?