O escritor e cronista Mentor Neto publicou um texto imperdível em sua coluna na edição 2487 da Revista IstoÉ. Segue uma versão abreviada:

Breno Borges foi flagrado pela polícia com 129 kg de maconha, armamento de uso exclusivo do Exército e munições. Preso em flagrante, o moço estaria bem encrencado se não fosse filho da desembargadora Tânia Borges, presidente do Tribunal Regional Eleitoral de Mato Grosso do Sul: a magistrada decidiu que seu pimpolho não poderia ser preso porque, coitado, sofre da Síndrome Borderline ― ou, conforme consta do processo, possui “desvio dos padrões de comportamento”. Desvio bravo, desses que levam 129 kg de maconha e fuzis no carro.

Bruno Borges é outro filho da mesma desembargadora. Advogado, defende a namorada do irmão, que se encrencou no mesmo flagrante. Em 2005, ele foi preso por assalto à mão armada em Campo Grande. Não ficou nem um dia na cadeia. Enquanto seu comparsa foi enviado ao presídio, a desembargadora-mãe interviu, e o pimpolho foi internado numa clínica psiquiátrica.
O forte dessa jurista não é manter seus filhos dentro da lei, mas mantê-los fora da cadeia. Bonito a gente ver uma mãe tão dedicada. O Conselho Nacional de Justiça (finalmente) abriu uma investigação contra três desembargadores do Mato Grosso do Sul, dentre os quais está a desembargadora Tânia Borges. Quem sabe, né? ― dirá você, entoando este mantra que vimos repetindo há pelo menos dois anos. Quem sabe isso, quem sabe aquilo.

Esse caso é um retrato do Brasil de hoje. Nós permitimos que a falta de ética extrapolasPalavrse as cuecas, as salas das repartições públicas e invadisse as salas de jantar e os almoços de domingo dessa gente. A safadeza “capilarizou” de tal forma que saiu da camada dos responsáveis diretos e contaminou seus parentes. Veja o exemplo (grotesco) do senador Aécio Neves, que está de volta à sua atuação política belo e formoso, enquanto a irmã e o primo usam tornozeleira.

Pai, filho, irmão, primo, tio. Família lembra Máfia, e, sem que nos déssemos conta, nosso país foi, aos poucos, dominado por pequenas “famiglias” de corruptos. Alguns exemplos: O casal Sérgio Cabral e senhora. O ministro [do STF] Luiz Fux, que encaixou a filha como desembargadora numa sabatina relâmpago. O ex-ministro [de Michel Temer] Geddel Vieira Lima, que pensou no conforto da famiglia quando quis garantir o apartamento em área de preservação histórica. A famiglia Garotinho e Rosinha, de triste lembrança. E como falar em famiglia sem lembrar da mais famosa do Brasil, unidos na praia e no sítio ― o pai, orgulhoso, diz que Lulinha “é um fenômeno”.

É bonito ver que essa gente passa a mão no seu e no meu dinheiro, mas que o Sagrado Núcleo Familiar continua sempre preservado